Yeah, bitch.

Publicada em 01:10 - 22/10/2014 por Zeca

Existem três tipos de séries de TV: as que não possuem pretensão alguma, servindo apenas para divertir o espectador, as cheias de pretensão e que antes de estrear já são comparadas a séries de renome (até hoje estamos atrás da “nova LOST”) e, por fim, existem aquelas que chegam pelos cantos e, como quem não quer nada, mostram a que vieram. Foi através de uma primeira temporada morna que fomos apresentados à brilhante história de um professor de química que é diagnosticado com um câncer de pulmão e que decide cozinhar metanfetamina para deixar dinheiro para sua família. Vince Gilligan e Thomas Schnauz eram dois roteiristas desempregados que tinham saído da famosa Arquivo X e agora se viam reclamando do mundo injusto do show business. Quando Gilligan disse que talvez a saída para os dois fosse trabalhar num supermercado, Schnauz, que havia visto uma reportagem sobre um traficante, disse: “Ou podemos comprar uma van e a transformar num laboratório de metanfetamina.” Foi o que bastou para que a mente de Gilligan começasse a arquitetar uma das melhores e mais bem construídas obras audiovisuais de todos os tempos. A trama é simples: o que acontece com uma pessoa quando ela chega ao seu extremo? Walter White era casado, professor de química há 25 anos, havia perdido a chance de fazer parte de um negócio bilionário, tinha um filho com deficiência e, por cima de tudo, descobriu que tinha apenas dois anos de vida. Todo mundo gosta de um vira-lata. Nós nos simpatizamos pelas histórias de personagens perdedores que tentam vencer. Mas não era essa a história. Era a jornada de um homem bom que se torna o diabo. Mr. Chips virando Scarface. Mr. White virando Heisenberg. Quando Walt encontra com seu ex-aluno, Jesse Pinkman, e decide começar a cozinhar metanfetamina cristal, o espectador pode ver um motivo moral por trás daquele ato criminoso. É um homem que sempre foi chutado e que quer apenas deixar um legado pra sua família antes de sua conta chegar. E com isso em mente, nós torcemos por ele. Mas assim como Dexter precisava de seu código para matar, Walter precisava de sua desculpa para fazer o que fazia. Ele precisava convencer aos outros e a si mesmo que era tudo pelo bem de sua esposa e de seus filhos. Não é até a primeira vez em que ele consegue uma quantia considerável de dinheiro pelo seu produto – com a promessa de mais – que vemos a verdadeira face do monstro começar a se formar. Na cena que sucede o épico encontro com Tuco Salamanca (“This is not meth.”), Walter entra em seu carro com um saco cheio de dinheiro na mão e vibra. E podemos ver naquele momento e em tantos outros o que ele finalmente confessa no genial episódio que fecha a série: não era pela família. Ele gostava daquilo. Ele era bom e se sentia muito vivo fazendo-o. Além de um roteiro impecável, Breaking Bad nos conquista pelas entrelinhas. Um pequeno detalhe pode significar muito no desenrolar da trama. A sala de roteiristas da série é adepta de uma técnica de dramaturgia que diz que se uma arma aparecer no Ato 1, é bom que ela seja disparada até o final do Ato 3. Aqui, tudo importa. Até o figurino. Marie e suas roupas roxas, Walter e sua transformação de bom para mau refletida nas tonalidades de suas roupas, que vão de claro a escuro. E por falar em reflexo, os diretores insistem em mostrar o do protagonista e deixar claro que existem duas versões do homem. Desde o primeiro episódio, quando ele recebe o diagnóstico do câncer, podemos ver seu reflexo na mesa de vidro, mostrando seu mundo virando de cabeça pra baixo. Coisas como Walter absorvendo manias de pessoas que ele tira de seu caminho fazem com que fiquemos atentos a qualquer possível dica que o roteiro dê sobre o que vem pela frente. Além disso, despertamos um sentimento de nostalgia sempre que a série insiste em fazer referência a si mesma, ao fazer, por exemplo, que a última morte que vemos em tela seja executada da mesma forma que a primeira. Com uma história tão viciante quanto a droga que os personagens produzem, Breaking Bad conseguiu em 5 anos o que poucas séries conseguem. Ela levantou o nível dos dramas de uma maneira que só vimos antes em The Sopranos ou The Wire. Mad Men, que também está chegando ao seu desfecho, e Breaking Bad se unem a essas duas com os padrões mais altos dos últimos anos. Com as duas últimas encerrando, fica a dúvida do que vem pela frente. É fato que a grande maioria dos produtos de Hollywood que temos hoje em dia – tanto da TV quanto do cinema – são decepcionantes. Caça níqueis rasos cujo objetivo é encher os bolsos dos grandes estúdios. O episódio “Felina”, que fecha a jornada de Walter White, foi assistido por 10.3 milhões de pessoas, o que representa um crescimento de mais de 400% em relação à audiência do episódio final do quarto ano da série. Vale lembrar que, se pra séries como Two and a Half Men e CSI esses números são rotineiros, Breaking Bad foi exibido no canal pago AMC, o que significa que as pessoas estão à procura não só da boa e velha Bazinga que nunca muda, elas querem conteúdo significativo, personagens que se transformam e evoluem, histórias que cresçam dentro do espaço necessário, sem ter que se alongar e se perder no meio do caminho porque o cheiro do dinheiro foi mais forte. O canal AMC por si só tomou uma senhora atitude quando Vince Gilligan chegou com uma história tão sombria em mãos. Breaking Bad possue algumas das cenas mais violentas vistas na televisão e o canal fez questão de que nada fosse censurado, com exceção da palavra “fuck”, que só foi liberada uma vez a cada ano. Se um canal de televisão, por mais que seja pago, se dispõe a não transformar um texto como esse, isso significa que os paradigmas estão de fato mudando. Que o conteúdo está passando a importar. Isso, claro, é apenas uma gota no oceano de bizarrices que vemos por aí, mas basta apenas um empurrão para que passemos a ver mais histórias de qualidade na TV. Afinal de contas, é pra ela que todos estão fugindo. O cenário cinematográfico não anda muito bem das pernas, com todos os seus desgastes e adaptações. Assim como o público, a comunidade dos atores clama por originalidade e muitos acabam recorrendo à televisão. Glenn Close, Kathy Bates e Kevin Bacon são alguns dos nomes que foram parar nas grades semanais. Essa migração, quando não feita apenas pelo contracheque gordo, beneficia aos atores, que buscam alavancar suas carreiras, aos canais, por ganharem credibilidade perante à qualidade dos produtos que oferecem e por último, mas não menos importante, ao público, que começa a ter à sua disposição aquilo que ele sempre quis ter ao sentar no sofá: coisa boa pra assistir. Walter, Jesse, Skyler, Hank, Marie, Saul, Walt Jr., Mike, Gus. Esses são alguns dos nomes que sentimos falta há mais de um ano. Breaking Bad foi tão envolvente, em seus arcos e na construção de sua mitologia, que vai deixar muitos órfãos por aí sem saber pra onde correr. Dizer que a série não tem um episódio ruim sequer não é exagero. Existem episódios melhores que outros, mas tudo faz parte de uma perfeita construção de roteiro. Se com outras séries ficamos discutindo qual temporada é a melhor, com essa não tínhamos dúvida: cada temporada nova que chegava era melhor que a anterior. Aaron Paul, o intérprete de Pinkman e um dos caras mais boa praça do show business, disse em entrevista que a cada ano o programa ficava mais sombrio – e, consequentemente, melhor -, o que parecia impossível. Mas era tudo verdade. Depois do estupendo final da quarta temporada, ganhamos de presente um último ano de tirar o fôlego. Os oito episódios finais são, sem sombra de dúvida, algumas das horas mais geniais da história da televisão. Levamos um soco no estômago e, antes mesmo de nos recuperar, outro certeiro nos atinge de novo. Uma verdadeira montanha russa de reações que culmina num episódio perfeito até no título - Fe= Ferro (Sangue); Li= Lítio (Metanfetamina); Na=Sódio (Lágrimas) -. Foram cinco anos acompanhando a história do professor de química que se transforma num rei. Um rei pro qual nós ainda inexplicavelmente torcíamos, apesar de toda a morte, envenenamento de criança e das cenas de cuequinha branca. Breaking Bad não nos forçou a gostar de seus personagens, sempre apresentando-os da maneira mais humana possível. E quando isso acontece, não é preciso forçar absolutamente nada porque no final das contas, é tudo uma questão de química.


Outras postagens



Comente

Parceiros

Podcast

Facebook

InSUBs - Qualidade é InSUBstituível © 2007 - 2017 - Termos e condições de uso.