Minhas séries preferidas estão acabando

Publicada em 22:02 - 16/02/2014 por Zeca

A primeira série que eu acompanhei fielmente na vida, talvez aquela que tenha aberto os portões para essa minha paixão por seriados americanos, foi The Fresh Prince of Bel-Air, conhecida em solo brasileiro como Um Maluco no Pedaço. Assisti religiosamente aos episódios dublados no SBT e depois pude aproveitar o áudio original no Warner Channel, na época em que o canal ainda prestava. Foi depois que eu fui apresentado ao mundo da TV a cabo (que na época era um luxo pra mim), que meu gosto por conteúdo televisivo mudou. Conheci e me apaixonei por Friends, comecei a assistir Two and a Half Men, Scrubs, Step by Step, Full House e por volta de 2004 ou 2005, comecei a assistir a série que me apresentaria ao mundo da linha cinzenta da pirataria (também conhecido como download de séries): The OC.

Depois de OC, um download puxou o outro e quando menos vi, meu HD estava repleto de episódios. E depois de aprender com constantes cancelamentos (toda série que eu começava a assistir era cancelada em menos de duas temporadas), desenvolvi uma regra: “caso eu já tenha investido no mínimo quatro anos (temporadas) com determinada série, acompanharei sua história até o fim”. Eu chamo essa regra de Regra Heroes. Porque, amigo, se você viu as quatro temporadas de Heroes, há um espaço especial reservado pra você no Paraíso. Com tal regra estabelecida, não demorou muito para que eu fizesse uma lista de séries preferidas, como todo mundo faz. Acompanhar 30 séries não é uma tarefa fácil, mas acompanhar suas preferidas é uma tarefa necessária. E é o que eu tenho feito por todos esses anos, até que as emissoras e estúdios e produtores chegaram lá na Casa Branca pra bater um papo com o Obama e foi mais ou menos assim:

- E aí, Obama. Que que tá pegando?

- Pô, nada demais, djow. E aí?

- De boa, mas se liga na parada, véi. Tem um maluco lá no Brasil chamado Cesar Filho. Pois é, o cara é tão fodido que nem sobrenome direito ele tem. Enfim, ele gosta muito de séries americanas e tal e a gente aqui de Hollywood andou conversando e decidimos que vamos cancelar todas as séries preferidas dele. Não dá pra usar a NSA aí pra espionar e saber quais elas são e tal?

- Pô, já é, bro.

E então, usando tecnologia da inteligência americana, Barack Obama e seu exército de executivos desalmados invadiram meu computador e me espionaram para descobrir quais eram minhas séries preferidas remanescentes. E eles estão cancelando e estragando uma por uma. Pra vocês terem uma ideia, eu montei uma lista de 16 séries preferidas aqui e, dessas 16, 6 foram canceladas/acabaram, 1 vai acabar e 3 foram estragadas, ou seja, mais da metade da minha lista foi pro saco. Esse shitstorm começou em 2010, quando o CW resolveu dar uma sexta temporada a Supernatural, uma série que foi arquitetada por seu criador para ter apenas cinco temporadas. Como muitos devem saber, Eric Kripke abandonou o navio e, daí em diante, nem os episódios fillers mais divertidos fizeram com que a série empolgasse como empolgava em meados de 2008. Os estragos continuaram um ano depois, em 2011, com a saída de Charlie Sheen de Two and a Half Men. Sim, já fazia algum tempo que a série não era mais a mesma, mas, ainda assim, não se compara ao estado de lixo televisivo em que ela se encontra agora. Nunca tive nada contra o Ashton Kutcher - gostava dele em That ‘70s Show -, mas mesmo com toda sua loucura e sangue de tigre, Charlie era a outra metade da série e sem ele não é a mesma coisa. Infelizmente, por causa da minha regra, seguirei me torturando até o fim da série, mas confesso que Chuck Lorre já devia ter acabado com ela quando o half men ainda era um gordinho que só pensava em comida e peidos.

Depois de duas séries estragadas (faltava mais uma), chegava a hora do massacre do cancelamento. Começando com a divertida Chuck, criada pelo mesmo Josh Schwartz de The OC. Salva por sanduíches da Subway, Chuck exibiu sua última missão em 2012, deixando Gugasms, eu e uma legião de fãs sem nossas doses semanais de Yvonne Strahovski (http://bit.ly/1eFerNo). Essa série, inclusive, foi especial pra mim porque tive a honra de ser o revisor responsável pela última temporada aqui na InSUBs. E nessa temporada criamos uma equipe que madrugava quase toda semana nas sextas, tudo pela paixão por essa história divertida. Ainda em 2012, tive que me despedir da série teen que moldou meu gosto musical e o lado romântico que minha namorada aproveita nos dias de hoje: One Tree Hill. Outra série que vivia na bolha, OTH conseguiu sobreviver mais três temporadas sem seus protagonistas e encerrou sua jornada numa nona temporada cheia de ações e situações atípicas em relação às temporadas iniciais. Mais uma vez, tive a honra de revisar a última temporada de uma das minhas séries preferidas de todos os tempos, que faz muita falta por causa de sua trilha sonora maravilhosa e por causa da melhor voz rouca do mundo: http://bit.ly/MpQpQz.

Em 2013, o dano foi maior. Foram quatro séries canceladas, um fim anunciado para 2014 e uma série estragada. A estragada: Community. Seguindo uma vibe meio Charlie Sheen, a série começou a ter problemas internos, que culminaram na demissão do seu criador (!). Depois da saída de Dan Harmon, os fãs tiveram que engolir uma quarta temporada meio estranha. E estamos falando de Community, então já viu. A boa notícia é que Harmon voltou para o comando do seriado. A má notícia é que Donald Glover (Troy) saiu e que a insanidade que me conquistou na primeira temporada agora me parece forçada. De qualquer forma, continuarei em Greendale até o fim. Além dessa, outra comédia sofreu ano passado e teve um fim bem irônico, considerando seu título. Happy Endings chegou como quem não quer nada, roubando o personagem negro de New Girl, com um show de vizinha no elenco e, quando menos vi, era uma das melhores comédias que eu acompanhava. Melhor, de longe, que muita porcaria que ainda está no ar. A “nova HIMYM” foi embora cedo demais e até hoje eu atraso minha despedida. E já que o assunto é “melhores séries que você não está vendo”, em 2013 o TNT resolveu cancelar a fantástica SouthLand. Sério, cara. Por que você ainda não viu essa série? Por quê? Ela é simplesmente, sem sombra de dúvida, a melhor série policial de todos, ponto, os, ponto, tempos, ponto. Não tem casinho da semana, não tem protagonista com poderes de percepção especiais (desculpa Hannibal e The Mentalist, mas, né...). É a polícia de Los Angeles indo atrás de quem não presta e tendo que lidar com seus problemas pessoais de forma nua e crua, com uma direção de fotografia que nos faz achar que estamos assistindo um documentário. São cinco temporadas - com episódios finais de tirar o fôlego - que todo fã de séries que se preze precisa assistir.

Chegando ao fim do meu massacre, ainda em 2013, dois dos mais icônicos anti-heróis da história da TV tiveram suas histórias encerradas. Vamos começar pela parte horrível. Dexter, o que fizeram com você? O que você fez com a gente? Você tem noção que não foi fácil aguentar o filho do Tom Hanks, né, cara? Nem aquela baboseira religiosa do Brother Sam ou a menina que odiava o Heath Ledger e muito menos o Miguel Prado. Cê tá ciente disso, né, cara? Então, nas sábias palavras de Debra Morgan, WHAT THE FUCK DID YOU DO? Sério. Eu queria ser uma mosca na sala de roteiristas na hora em que eles fizeram aquele último roteiro só pra ver se tinha alguém dizendo: “Pô, tá foda, hein? Tá muito bom issaqui, sérião.” MAS QUE MERDA FOI AQUELA? Você que ainda não viu o final, eis o que eu li no Twitter na época em que ele foi exibido: “Agora que temos o final de Dexter, os criadores de LOST finalmente terão um descanso.”. Sacou a seriedade do problema? Como se já não bastasse eu estar sofrendo com o assassinato em massa das minhas séries preferidas, os produtores ainda me entregam aquela bomba. Sinceramente...

Vamos falar de coisa boa, por favor. Vamos falar de uma obra prima. Do cozinheiro. Do homem que matou Gus Fring. Say his name. Sim, eu sei que você disse aí. Há alguns meses atrás, testemunhamos uma verdadeira aula de como fechar uma série, lecionada por Vince Gilligan e seus colegas no episódio final de Breaking Bad. Como se a série como um todo já não fosse perfeita, seus últimos oito episódios foram uma viagem (com o perdão do adjetivo tosco) alucinante até o fim. Tanto que os classifico como as oito melhores horas de TV que eu já vi na minha humilde e nada mole vida. Se você ainda não assistiu essa maravilha, pare tudo que você está fazendo, feche a aba do Xvideos, pare de tentar cantar essa pessoa aí no Facebook (porque, sejamos francos, ele/ela não está tão afim de você) e corra. Corra e me agradeça depois. Baixe, compre os DVDs, assine a Netflix, faça o que fizer. Mas assista essa série e venha para o lado crystal blue da Força. Eu garanto que você não vai se arrepender.

2010, 11, 12, 13 e 14. Foram cinco anos vendo personagens queridos sendo torturados por decisões mais erradas que as tomadas pelo Nicolas Cage. E, enfim, chegamos a esse ano e a uma das despedidas que eu nunca queria que chegasse e que eu já discuti por aqui antes. Faltam precisamente 42 dias para ouvirmos o Bob Saget nos chamar de crianças pela última vez em How I Met Your Mother. E sinceramente, não estou psicologicamente pronto pra isso. A cada legenda que nós fazemos, eu percebo que é uma a menos até o fim. E as chances de eu entrar numa depressão pós-fim-de-série-preferida regada a churros e brigadeiro e um pouco de Lionel Richie são grandes. Por quê, Hollywood? Por que cê fez isso, cara? Eu tava aqui de boa e você vem e cancela minhas séries. Isso não se faz. Isso não é de Deus. Mas eu vou erguer minha cabeça e abraçar minhas séries que ainda estão vivas. Pelo menos enquanto eu posso.


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