Cabra Marcado para Morrer: entre a memória e o medo

Publicada em 19:03 - 28/03/2018 por ziggy

"É cinema, é tipo televisão... é reportagem, mas é cinema"

 

Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho, pretendia inicialmente, quando começou a ser produzido, em 1964, ser um filme de ficção baseado na vida de João Pedro Teixeira e sua vida política. Por conta de restrições geradas pelo Golpe de 64, as filmagens tiveram que ser encerradas. Sendo assim, Coutinho nos traz, além de algumas cenas gravadas para o projeto inicial, um documentário sobre o trabalho no campo e a vida da esposa de João Pedro, Elizabete Teixeira, que passou grande parte da vida escondida por causa da perseguição política, voltando para a sua vida apenas quando Coutinho a encontra. Com isso, temos simbolicamente que a desigualdade não é ficcional, e sim uma realidade dolorosa.

Com esses 3 "objetivos", chamemos assim, já definidos, Eduardo Coutinho leva o espectador a experiências profundas, mostrando como estava a vida dos trabalhadores envolvidos com a produção do filme após a ditadura militar, em 1981, enquanto paralelamente a isso tenta reaproximar uma família desestruturada graças aos militares, mostrando como todos foram afetados e marcados de alguma forma pelo período, desde crianças até idosos.

É difícil, para um brasileiro, não se sentir um pouco que seja representado por "Cabra Marcado Para Morrer". É um filme íntimo da nossa realidade, um documentário humano como nenhum outro jamais foi, mostrando como é difícil, em tempos de opressão, lutar por algo que acredita e, mais do que isso, necessita. Ainda mais se você é pobre.

Em tempos como os que vivemos, assistir "Cabra Marcado Para Morrer" chega a ser assustador. Com uma democracia corrompida, um Golpe de Estado recém ocorrido, perseguição política, a morte de Marielle, a intervenção no Rio de Janeiro, ver "Cabra Marcado Para Morrer" faz qualquer ser pensante se perguntar o quanto realmente evoluímos desde então. Será possível que uma simples crise de representatividade faça com que quase toda uma nação se esqueça completamente dos períodos de terror que muitos passaram? São tempos assustadores, e esse documentário, principalmente agora, é essencial para a formação humana de qualquer brasileiro.

Com certeza um dos filmes mais importantes para a cena nacional, com um trabalho de consciência de classe incrível, trazendo a realidade da sua forma mais bruta, fazendo que tenhamos experiências muito profundas. Sem dúvidas, o melhor documentário que já vi.

João Pedro Teixeira, Elizabete Teixeira, Eduardo Coutinho e Marielle, presentes!

 

DICA: O FILME ESTÁ DISPONÍVEL NO YOUTUBE COMPLETO E EM BOA QUALIDADE.


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