A pirataria obrigatória

Publicada em 23:09 - 22/09/2014 por Zeca

Existem dúvidas nesse mundo que parecem não ter fim. Para onde vamos? Qual o sentido da vida? Quem continua autorizando que o Leandro Hassum faça filmes? Por que os grandes estúdios e distribuidoras parecem querer que sejamos piratas?

Na última quinta-feira, dia 18/09, estreou no Brasil o novo filme de Seth MacFarlane, conhecido por Family Guy, American Dad!, The Cleveland Show e suas últimas empreitadas, a educacional Cosmos: An Spacetime Odyssey e o infame longa Ted. Vamos ao primeiro detalhe da chegada do filme A Million Ways to Die in The West às salas de cinema brasileiras: o nome. Aqui, ele chegou com o nome Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola.

Eu vou repetir.

Um Milhão de Maneiras. De Pegar. Na Pistola.

O título original traduz para: Um Milhão de Maneiras de Morrer no Oeste. Aí, entra meu pedido: pelo amor de Deus, coloquem uma criança de 10 anos nas reuniões que decidem os nomes dos filmes em solo tupiniquim. Porque um bom pirralho nunca deixaria que um nome como esse passasse em branco. Sem se conformar com o nome ridículo, quem distribuiu o filme no Brasil só o liberou em setembro, TRÊS MESES depois da estreia americana. Uma vez que o filme estreou por aqui, eu sou forçado (pelo menos na minha cidade) a pagar o preço mais alto do cinema. Porque se ele não estiver sendo exibido na sala mais cara, está sendo exibido num horário que impede que eu o assista durante a semana, em dias de promoção, só porque eu estou ocupado com aquele negócio... Como é o nome mesmo? Ah, sim. Emprego. São os piores horários, nas salas mais caras e você ainda tem que ficar se esquivando das versões dubladas. Eis que ao comentar a minha indignação no trabalho, me soltam aquela velha frase que todo mundo ouve em algum ponto: "Já tem download desse filme em torrent". Não só o filme está disponível via torrent, ele está disponível via torrent em formato blu-ray.

"Ain, mas nada substitui a experiência de ir ao cinema, é bem mais legal do que ver no computador". Eu concordo com você, Ricardo. Mas veja bem a minha situação. Eu não posso assistir o filme durante a semana e se puder, tenho que desembolsar dilmas que farão falta no meu orçamento. Dilmas que poderiam ser usadas com coisas básicas, como essa tal de comida aí da qual todo mundo fala. Então, o que eu faço? Vou pro cinema mesmo assim ou compro um lanche reforçado e assisto o filme em blu-ray no conforto da minha sala?

Agora imagine que você é um garoto americano que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones. Você acompanha a série How I Met Your Mother desde o primeiro capítulo, lá de 2005. Série esta que constrói um suspense em volta da personagem que dá título à mesma por oito longos anos. E depois de tanto tempo, eis que surge o oitavo season finale, "Something New", que traria a identidade da tão aguardada mãe. Você, menino do Kansas criado a leite com pera e ovomaltino, está ligado nas tecnologias atuais do mundo moderno e não necessariamente precisa assistir séries assim que elas passam na TV. Existe DVR (TiVo para os íntimos) para suprir esse imediatismo. Você grava o programa pra assistir no dia seguinte, mas resolve dar aquela navegada no Facebook pra xavecar com a líder de torcida (que francamente, não está tão afim de você) e o que acontece? Você leva o pior spoiler da história dos spoilers spoileados. Boom. Right on your face and your lower back. Tá lá a cara da mãe, a fala, a identidade, o CPF, o recorde dela no Candy Crush, tudo. Por quê? Porque a emissora QUER que você assista na hora. Eles usam o medo do spoiler como ferramenta para obrigar que o espectador assista a série na hora em que ela está no ar, mesmo que a TV esteja repleta de atrações tão interessantes quanto. Ou seja, o garoto americano não pode gravar sua série preferida e acompanhar os perfis dela no Facebook ao mesmo tempo. "Ain, foi só uma vez". Dica pra quem ainda não viu o 6x01 de The Good Wife: não vá para o perfil do Facebook deles. Porque eles fizeram de novo. E farão de novo. E de novo e de novo. Because time is a flat circle. E ao invés de, sei lá, procurar uma maneira de se adaptar ao novo jeito de se consumir entretenimento, as emissoras, estúdios, distribuidoras e o caralho a quatro continuam querendo que a gente faça as coisas do jeito deles.

Querida Hollywood, se a minha mãe não me obriga a ir pra igreja, não é você que vai me obrigar a não assistir um filme no meu sofá e me obrigar a torrar dinheiro num horário péssimo no cinema.

Melhora, galera.


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